segunda-feira, 15 de outubro de 2012





 
A receita de UMA felicidade.

Sentia-se feliz. Irremediavelmente feliz.
Naquela única frase residia toda a essência do seu ser.
É claro que precisava de um prólogo para que sua felicidade repentina pudesse ser entendida. Ofereceu, então, a sua história.
Ela, e aqui, só me permitiu chamá-la de Ela, pois sabia que representava outros tantos e tantas, que se juntavam nas prateleiras dos prontuários médicos e que já haviam perdido seus nomes em meio a siglas e números. Ela, 57 anos, casada aos 19, com três filhos. Em seu prontuário era classificada com um F33, apenas outro número. Caso perdido, diriam alguns “experts”.
“Ela” tinha em seu “currículum vitae” vários anos de abnegação, vivendo sua vida em função de outros, tentando ser a melhor esposa, a melhor mãe, adequando-se a expectativas alheias.
Em dado momento, sua vida começara a esvaziar-se de sentido e tudo foi perdendo a importância. Ela assistia sua energia ir embora a cada manhã em que acordava sem vontade de abrir os olhos. E assim começaram as dores, dores do corpo e dores da alma. A tristeza passou a ser sua constante companhia.
Aos 41 anos, por insistência da família, buscara ajuda e, desde então sua existência se resumia a pilhas de receitas controladas, a horas na fila esperando consulta, a infindáveis lições dizendo-lhe que melhorar só dependia dela. Tudo tão incompreensível, tão distante do que sentia. O tratamento que lhe prometeram não deveria ser esse: fazer tudo isso sozinha. Esperava que houvesse família, e marido e filhos. Todos aqueles que tinham uma parcela de culpa pelo seu mal-estar. Assim pensava ela, enquanto se passavam quase vinte anos de uma vida amortecida por medicações.
 Em uma manhã de sábado, voltou do supermercado e encontrou a casa vazia. Só o silêncio, quase palpável, a preencher os espaços. Tudo estava exatamente como deveria estar. Sentiu o tão familiar aperto no peito aproximando-se, a garganta fechando. Largou as sacolas no meio da cozinha e correu para o banheiro.
Deparou-se com o espelho. Olhou-se.
Num ato de extrema coragem, encarou a fragilidade de sua história e expôs-se diante de si.
Observou atentamente cada marca em seu rosto e, com as mãos trêmulas, acariciou cada ruga, experimentando cada expressão que seus músculos eram capazes de fazer.
Uma centelha de luz apareceu no fundo do olhar.
A resposta estava ali, pairando, apenas esperando o momento certo para que ela pudesse agarrá-la. Mas quando fizera a pergunta? Seria isso aquilo que chamam de epifania?
Não sabia.
Uma lágrima escapou, furtiva. A vida soubera ser paciente, de um jeito que “Ela” jamais havia sido.
As expectativas, os acertos, os erros, tudo tinha a ver com: tentativas.
Um esboço de sorriso brotou-lhe no canto da boca.
Suspirou e disse baixinho, como que para o âmago de seu ser:
“Não há garantias na vida... Esteja preparada para tudo”.
                     
No dia de sua derradeira consulta, “Ela” resolveu desafiar os prognósticos. Desculpou-se sinceramente com seu doutor, gostava dele, mas descobriu que gostava mais daquela que reencontrou à frente do espelho. Deixou em cima da mesa do consultório a cartela de comprimidos brancos e foi viver.

Era o que de melhor havia feito por si, a vida inteira.


Anne Luisa Nardi

3 comentários:

Ellen disse...

Muito bom o texto
Nossa eu quero escrever assim um dia...
passa lá no blog?
www.cemlivrospordia.blogspot.com.br

Bella disse...

Muito bonito, Anne, me fez pensar de verdade.
Que bom seria se pudessem mais pessoas tomar uma decisão assim. Parabéns.

Unknown disse...

Linda e tão real..