sexta-feira, 11 de abril de 2008



adoro orquídeas.

já nascem artificiais.

já nascem arte.

[água viva - clarice lispetor]

quarta-feira, 2 de abril de 2008

eu falo em poesia.

quem me dera ser palhaço.
a minha cara eu pintaria.
um palhaço, que só diverte.
e rindo, a verdade eu diria.
mas eu não sei divertir.
ninguém ri das minhas piadas,
e eu não sei o que dizer.
e de mim ninguém riria.
e se para ser palhaço eu não serviria.
não eu.
o que eu faria?
seria eu um artista que falaria no abstrato?
cores e formas eu usaria?
não. eu não sei pintar.
e a arte eu não tocaria.
um músico que amaria com notas?
e cantos eu entoaria?
ah! ninguém ouviria.
e das notas mais bonitas
eu destoaria.
falar simplesmente?
mais fácil seria
eu, que nem sei o que dizer...
pois se digo, do jeito que sei.
eu sei, eu erraria.

então eu calo?
minha boca eu fecharia?
...
...
...


não.
eu falo em poesia.

quinta-feira, 6 de março de 2008

era uma vez. (sobre o tempo.)


era uma vez...
todas as rimas que ficam presas na garganta.
sem terem por onde sair.
e todas as palavras sujas sem serem ditas, pra onde vão?
remoídas mil vezes na mesma sincronia.
mastigadas e engolidas. e comidas novamente.
palavras que se perderam com o tempo, esse algoz.
palavras de sentimentos sentidos e nunca pronunciados.
ficaram pra trás.
e assim “era uma vez” começa a ter nexo.
porque era uma vez, é o que já aconteceu.
não será novamente.
e a garganta é chicoteada, por aquilo que não se atreveu.
um conto de fadas.
que ficou ali, esperando pra ser contado.
e não terá outra chance.
um sentimento despedaçado pela covardia.
uma história esmagada pelo não ser.
e das expectativas... só o que resta...
o “era uma vez”, sem final feliz.



o tempo não poupa. nada. ninguém.


by anne 11:32 pm.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

a casa.



a casa estava arrumada. do jeito que ele gostava. havia passado a tarde dedicando-se a tirar o pó impregnado dos móveis, limpando os porta-retratos, esfregando o chão de suas imundícies até sentir que as mãos estavam trêmulas e não obedeciam mais. tomou cuidado para que cada canto, cada entrada e cada saída ficasse impecável. a casa não era grande, mas depois de todo lixo expulso, parecia maior. e agora, quase imaculada não fosse a presença dela, a casa era só solidão. porque até a sua presença estava cheia de solidão. e ela esperava torcendo as mãos, observando as luzes da rua, a chegada dele. sabia que seria intempestiva, por isso arrumava a casa, uma, duas, três vezes, para que ele pudesse despejar sua bagunça. era assim sempre. a casa pronta, as três batidas, ela saltava do sofá e abria a porta. tudo se modificava. a casa branca enchia-se novamente. as cores trazidas por ele riscavam o chão, a mesa, a janela, o quadro, o teto, a cama, o tapete persa, os lençóis. quase cegando-a. já na porta, os pedaços de seu desarrumado começavam a ficar pelo chão. ela apenas dava passagem para ele pudesse entrar e observava a poeira deitando novamente sobre os móveis. era como um vento.
as folhas de papel cuidadosamente empilhadas na escrivaninha saltavam e eram levadas para fora da janela. um a um os porta-retratos estilhaçavam-se no chão. não era mais só uma casa, era um emaranhado de palavras, sons, luzes e visões desconexas. e ele agigantava-se vertiginosamente aos olhos dela.
ouvia o som dos vidros serem quebrados longinquamente, de lençóis sendo rasgados e sentia o cheiro da lama misturado ao cheiro das rosas esmigalhadas. havia uma brusquidão nos gestos, que a cada movimento acertavam-lhe um soco no estômago, mesmo sem tocá-la. ele nunca a tocava. ao mesmo tempo, havia uma certa suavidade na voz, como que parecida com uma carícia sutil. os olhos dele sugavam-na, chamando a misturar-se a ele, a compartilhar da desordem das coisas. aquela desordem que parecia imiscuir-se nele. por um segundo, apenas e somente por um segundo, que ficava suspenso no ar, ela deixava-se mergulhar, e neste segundo podia ver caleidoscópios rodopiando no ar, portas que se abriam estrondosamente, vozes misturadas, e mãos de mil cores tocando-a. então ela se dava conta de que ele era feito disso, ele era isso. a desordem das coisas, as mil cores, as mil vozes, as mil portas. e o aceitava, como quem aceita uma criança em seu ventre. _eu te aceito. te aceito. – as únicas palavras no meio daquela noite, ditas sem deixar escorrer um único som. agora ele estava dentro dela, correndo por suas veias, atravessando suas conexões nervosas e remexendo suas entranhas, pulsante, pulsante.
ela era a casa. a casa que ele desarrumava. deixando em cada pedaço de espaço, o pó viscoso de sua imensidão. e dentro dela ele se arrumava e reconstruía cada parte sua.
abandonava ali, a lama e a brusquidão, para se tornar suave, quase harmonioso outra vez.
ela ouvia então um grito quase mudo, que se esforçava para sair da garganta de alguma coisa, e como num parto, ela o expulsava de si, como num parto que faz nascer, brotar, jorrar,
ele nascia novamente, limpo, puro de todas as durezas, pecados e da loucura suja
– nem toda loucura é suja, assim como nem todo mal é ruim –
para sair pela porta e deixá-la novamente sentada no sofá, as mãos se torcendo e os olhos espiando as luzes da rua. ele havia partido, estava sozinha. ela e casa, que já não era mais ela. as cores apagadas e o silêncio. a casa que ela tinha que arrumar. pois sabia que ele viria novamente no outro dia.
by anne. 19/02/08 3:40 pm.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

quem tem medo de Friedrich Wilhelm Nietzsche?


ewige wiederkunft - o eterno retorno.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? (nietzsche - gaia ciência)


continua...

sábado, 12 de janeiro de 2008


a vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. a vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. mas que é incrível por ser real. a vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária. (tati bernardi –o não texto).

a música é um troço esquisito. difícil ver. pior é sentir. fala de umas coisas tão bobas. faz doer o que deveria ser bom. e faz fácil o que seria impossível. não entendo mais as letras... os sons é que tocam. e a gente tenta metamorfosear cheiros, olhares, toques e gostos. tenta transformar em algo plausível, racional. não... quero uma clave de sol em mim. um dia a gente entende.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

j.c.c.




há coisas que apenas por tentativas acontecem.


tentativas de me ser, sendo.
revendo velhos conceitos
abandonando certos mitos

eu te aceito e me aceito.

e assim te quero.
assim eu sinto.

e me sinto.

sorriso brota involuntário.
nos olhos a mensagem:
penso em você.



feliz 2008.



sim, existir é incompreensível e excitante. (caio fernando abreu)