sábado, 17 de maio de 2008

descobertas ou sobre quando o mundo acontece lá fora.


sou-me única medida de mim mesmo.
e, enquanto caminho, pressinto no gosto – no
tato
a verdade de um corpo
e a verdade de um verbo
conciliadas no grito
e volto a me visitar de pés descalços
chafurdando o barro do caminho
já tornado barro do corpo desfeito.

não há mais pressa, os anos
não me dizem o que sou. é sempre no agora o
meu combate.

só se visita o espelho de pés descalços. do contrário
o chão, infecundo, seduz menos que a miragem.

farei disso uma confissão.
não há lembrança que não seja torta, não
há voz que não se queira ouvida.
há um corpo, quase me
esqueço. um corpo que se quer tênue.
sempre que falo, falo do que sou
não porque seja, mas sim por que fale.

todo passo, todo passo é irretraçável. porque,
como tudo mais, ele habita o instante.

percebia pela primeira vez que não poderia
dizer tudo. e às vezes achava que se abrisse a boca
bem aberta, se falasse bem alto, qualquer palavra
que eu dissesse valeria por todas.
do tempo. nada me diz. nada me comunica mais.
nada me comunica mais da singeleza do tempo.

da espera, da espera. / da ânsia/ da força, do retorno/
do instante, de tudo o que é instantâneo.
do erro/ da voz, do grito/ da
palavra.//
rude ou cansada, do cansaço/
do caminho e da colheita. da cidade. das coisas do
corpo/ do corpo.
do corpo.
cada rua que passa deixa um rastro em meu
sorriso
— adiante.
mais um som, mais uma luz,
que venha outra voz
talvez outro corpo
— adiante.

trechos de: corpo tênue - maurício chamarelli gutierrez
foto: misha gordin

sexta-feira, 11 de abril de 2008



adoro orquídeas.

já nascem artificiais.

já nascem arte.

[água viva - clarice lispetor]

quarta-feira, 2 de abril de 2008

eu falo em poesia.

quem me dera ser palhaço.
a minha cara eu pintaria.
um palhaço, que só diverte.
e rindo, a verdade eu diria.
mas eu não sei divertir.
ninguém ri das minhas piadas,
e eu não sei o que dizer.
e de mim ninguém riria.
e se para ser palhaço eu não serviria.
não eu.
o que eu faria?
seria eu um artista que falaria no abstrato?
cores e formas eu usaria?
não. eu não sei pintar.
e a arte eu não tocaria.
um músico que amaria com notas?
e cantos eu entoaria?
ah! ninguém ouviria.
e das notas mais bonitas
eu destoaria.
falar simplesmente?
mais fácil seria
eu, que nem sei o que dizer...
pois se digo, do jeito que sei.
eu sei, eu erraria.

então eu calo?
minha boca eu fecharia?
...
...
...


não.
eu falo em poesia.

quinta-feira, 6 de março de 2008

era uma vez. (sobre o tempo.)


era uma vez...
todas as rimas que ficam presas na garganta.
sem terem por onde sair.
e todas as palavras sujas sem serem ditas, pra onde vão?
remoídas mil vezes na mesma sincronia.
mastigadas e engolidas. e comidas novamente.
palavras que se perderam com o tempo, esse algoz.
palavras de sentimentos sentidos e nunca pronunciados.
ficaram pra trás.
e assim “era uma vez” começa a ter nexo.
porque era uma vez, é o que já aconteceu.
não será novamente.
e a garganta é chicoteada, por aquilo que não se atreveu.
um conto de fadas.
que ficou ali, esperando pra ser contado.
e não terá outra chance.
um sentimento despedaçado pela covardia.
uma história esmagada pelo não ser.
e das expectativas... só o que resta...
o “era uma vez”, sem final feliz.



o tempo não poupa. nada. ninguém.


by anne 11:32 pm.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

a casa.



a casa estava arrumada. do jeito que ele gostava. havia passado a tarde dedicando-se a tirar o pó impregnado dos móveis, limpando os porta-retratos, esfregando o chão de suas imundícies até sentir que as mãos estavam trêmulas e não obedeciam mais. tomou cuidado para que cada canto, cada entrada e cada saída ficasse impecável. a casa não era grande, mas depois de todo lixo expulso, parecia maior. e agora, quase imaculada não fosse a presença dela, a casa era só solidão. porque até a sua presença estava cheia de solidão. e ela esperava torcendo as mãos, observando as luzes da rua, a chegada dele. sabia que seria intempestiva, por isso arrumava a casa, uma, duas, três vezes, para que ele pudesse despejar sua bagunça. era assim sempre. a casa pronta, as três batidas, ela saltava do sofá e abria a porta. tudo se modificava. a casa branca enchia-se novamente. as cores trazidas por ele riscavam o chão, a mesa, a janela, o quadro, o teto, a cama, o tapete persa, os lençóis. quase cegando-a. já na porta, os pedaços de seu desarrumado começavam a ficar pelo chão. ela apenas dava passagem para ele pudesse entrar e observava a poeira deitando novamente sobre os móveis. era como um vento.
as folhas de papel cuidadosamente empilhadas na escrivaninha saltavam e eram levadas para fora da janela. um a um os porta-retratos estilhaçavam-se no chão. não era mais só uma casa, era um emaranhado de palavras, sons, luzes e visões desconexas. e ele agigantava-se vertiginosamente aos olhos dela.
ouvia o som dos vidros serem quebrados longinquamente, de lençóis sendo rasgados e sentia o cheiro da lama misturado ao cheiro das rosas esmigalhadas. havia uma brusquidão nos gestos, que a cada movimento acertavam-lhe um soco no estômago, mesmo sem tocá-la. ele nunca a tocava. ao mesmo tempo, havia uma certa suavidade na voz, como que parecida com uma carícia sutil. os olhos dele sugavam-na, chamando a misturar-se a ele, a compartilhar da desordem das coisas. aquela desordem que parecia imiscuir-se nele. por um segundo, apenas e somente por um segundo, que ficava suspenso no ar, ela deixava-se mergulhar, e neste segundo podia ver caleidoscópios rodopiando no ar, portas que se abriam estrondosamente, vozes misturadas, e mãos de mil cores tocando-a. então ela se dava conta de que ele era feito disso, ele era isso. a desordem das coisas, as mil cores, as mil vozes, as mil portas. e o aceitava, como quem aceita uma criança em seu ventre. _eu te aceito. te aceito. – as únicas palavras no meio daquela noite, ditas sem deixar escorrer um único som. agora ele estava dentro dela, correndo por suas veias, atravessando suas conexões nervosas e remexendo suas entranhas, pulsante, pulsante.
ela era a casa. a casa que ele desarrumava. deixando em cada pedaço de espaço, o pó viscoso de sua imensidão. e dentro dela ele se arrumava e reconstruía cada parte sua.
abandonava ali, a lama e a brusquidão, para se tornar suave, quase harmonioso outra vez.
ela ouvia então um grito quase mudo, que se esforçava para sair da garganta de alguma coisa, e como num parto, ela o expulsava de si, como num parto que faz nascer, brotar, jorrar,
ele nascia novamente, limpo, puro de todas as durezas, pecados e da loucura suja
– nem toda loucura é suja, assim como nem todo mal é ruim –
para sair pela porta e deixá-la novamente sentada no sofá, as mãos se torcendo e os olhos espiando as luzes da rua. ele havia partido, estava sozinha. ela e casa, que já não era mais ela. as cores apagadas e o silêncio. a casa que ela tinha que arrumar. pois sabia que ele viria novamente no outro dia.
by anne. 19/02/08 3:40 pm.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

quem tem medo de Friedrich Wilhelm Nietzsche?


ewige wiederkunft - o eterno retorno.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? (nietzsche - gaia ciência)


continua...

sábado, 12 de janeiro de 2008


a vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. a vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. mas que é incrível por ser real. a vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária. (tati bernardi –o não texto).

a música é um troço esquisito. difícil ver. pior é sentir. fala de umas coisas tão bobas. faz doer o que deveria ser bom. e faz fácil o que seria impossível. não entendo mais as letras... os sons é que tocam. e a gente tenta metamorfosear cheiros, olhares, toques e gostos. tenta transformar em algo plausível, racional. não... quero uma clave de sol em mim. um dia a gente entende.